Quem disse que Maria é Mãe de Deus?

Sem dogmatismos. Sem tradicionalismos. Como sabemos, de fato, por que Maria é dita “Mãe de Deus”?


Algumas canções do Pe. Zezinho me chamam a atenção pela forma como ele incita uma crítica às ações pouco cristãs dos católicos. Não quer dizer com isso que os protestantes estivessem “corretos” ou “vivendo de acordo com o evangelho”. Trata-se, apenas, de manter sempre viva uma auto-análise necessária a quem quer viver, de fato, a sua fé sem superficialidades. Outras vezes, encontramos conflitos insensatos entre católicos e protestantes sobre a dignidade de Maria mãe de Jesus. Afinal, os católicos têm coragem de enfrentar a verdade contida na Bíblia para poderem fundamentar o que significa dizer que Maria é a “Mãe de Deus”? E por que os protestantes não fazem outra coisa a não ser “protestar”, sem reconhecer que na sua Bíblia existe algo que Deus falou sobre Maria?


Do senso comum, sabemos que a palavra “mãe” significa “aquela que dá à luz”. Das origens da Criação, Deus ordenou como vocação fundamental à mulher “dar à luz” (cf. Gn 3, 16). Desde as origens, Deus também ordenou que a luz fosse separada das trevas e, nesse sentido, que a “geração da mulher” fosse separada da “geração da serpente” (cf. Gn 3, 15). Ora, essa “separação” foi ordenada para a “mulher de Deus”, ou seja, para aquela que buscava viver na presença de Deus, de acordo com seus desígnios. A “geração da serpente” trata-se da geração que conseguiu através do pecado ter parte na geração humana e assim opor-se aos desígnios de Deus conflitando contra a “geração da mulher”. Tanto a Bíblia explica a forma e a origem de como se dá esse conflito como também revela quem faz parte desse conflito. A geração da serpente não podia “dar à luz”, uma vez que “as trevas” não podem conceber a luz do ponto de vista de “gerar” a vida, a não ser unicamente a geração da mulher. E “dar à luz” é um ato sublime, excelso, concedido à natureza daquela que também era “semelhante” a Deus (cf. Gn 1, 26-27).


Mas a idéia que se reporta à existência de Deus parece desconsiderar que Deus nascesse de uma mulher! Ou melhor, acaso seria lógico considerar que Deus nascesse de Deus? Quando Deus revelou seu nome a Moisés, revelou com ele sua essência contida no seu significado (cf. Ex 3, 6.14). O “ser unicamente existente”, “aquele-que-era, aquele-que-é, aquele-que-vem”, Iahweh – Deus se revelou, mas não precisou que o homem concebesse sua idéia de Deus, como encontramos na mitologia grega. Com isso, as manifestações de Deus em momentos culminantes de quando o impossível seria realizado demonstram que, por mais que se objetivem as formas da manifestação de Deus, ainda sim Deus sempre encontrará sua forma “única” de se manifestar no tempo, caracterizando sua natureza eterna. “Deus existe por si só”: é o que encontraremos na revelação de seu nome. Todas as coisas só existem por causa dele e sem ele, nada foi criado (cf. Jo 1, 3s). A dignidade de Maria mãe de Jesus não seria diferente. Maria também existe por causa de Deus e sem Deus, Maria não teria sido criada.


E, então, se Deus é “o ser unicamente existente” e eterno, Ele precisaria nascer? Se Deus precisasse nascer, o que existia antes? Esse conflito lógico está de tal forma arraigado na cultura judaica que até os protestantes buscam se basear nele para terem o que protestar contra a natureza de Maria. Acaso não dizem que têm fé?! Que fé seria essa de tal forma presa a sentenças lógicas de entendimentos sobre Deus? E existe um atributo de Deus que consiste nas suas decisões: todas as decisões de Deus são eternas (cf. Gn 17,8; Ex 12,14; Pr 16,3; Sl 82,1; Sl 9,8; Sb 1,14). Aquele que liberta o homem do poder da morte, acaso não seria livre para tomar suas próprias decisões? O que ainda consiste em se prender a raciocínios lógicos para entender a decisão de Deus em querer nascer de uma mulher? Nascer não significa que não existia antes!


Muitas vezes, as culturas arcaicas tratavam os pais como autoridades dignas de veneração a tal ponto que obedecer aos pais significava obedecer a Deus. Com isso, a palavra “mãe” significaria aquela que teria “poder” de trazer à vida. Quando se conflitava o que estava escrito na Bíblia, ao invés de esclarecer, confusões eram criadas no intento, tão somente, de adquirir adeptos às novas seitas. E assim, dizer que Maria seria “mãe de Deus” consistia em acreditar cegamente numa doutrina (católicos) ou desconsiderar que Deus nasceria de uma mulher (protestantes). Ou seja, a idéia que se conflitava era de que uma mulher teria “poder” de trazer Deus à vida! Sendo Deus o princípio da vida e por Ele todas as coisas existirem, como uma mulher teria “poder” de Lhe dar à luz?


No entanto, Jesus veio colocar os pontos nos is. No casamento em Caná, sua mãe lhe diz: “Eles não têm mais vinho”, ao passo que Jesus lhe responde: “Que queres de mim, mulher? (...)” (cf. Jo 2, 1ss). Aqui está, senão, a resposta para aquele conflito de entendimentos. Simplesmente, Jesus rompeu a cultura da época para colocar Maria no seu devido lugar. Jesus não rebaixou Maria sua mãe nem a venerou mais que Deus o Pai. Embora fosse Filho de Deus, Jesus sabia que estava sob condição humana num casamento! Por que sua mãe se intrometeria num assunto que não competia a Jesus, a não ser aos responsáveis pela festa? Contudo, existia uma outra dimensão onde Maria estava inserida que a fez recorrer ao Filho. Jesus ainda disse: “(...) Minha hora ainda não chegou”. Ora, por que ele responderia isso a sua mãe? Até aquele momento, a Luz que veio ao mundo ainda não tinha sido revelada. Dessa forma, por que Jesus precisou que sua mãe lhe incitasse?


É sabido que quando uma mulher concebe, ela passa 10 luas, ou seja, 9 meses para dar à luz a filhos de partos normais. Durante esse tempo, o filho vai sendo gerado no ventre daquela mãe e ao mesmo tempo tecido pela mão de Deus. Pe. Léo dizia que as mulheres, quando grávidas, tinham o privilégio que os homens não tinham de sentir em seu ventre a mão de Deus tecendo seu filho. Logo após o parto, o filho cresceria por si mesmo sem mais necessitar do cordão umbilical da mãe. Com Jesus aconteceu da mesma forma, mas em dois planos distintos e ao mesmo tempo inerentes às suas naturezas humana e divina.


“Eis que a virgem concebeu e dará à luz um filho e pôr-lhe-á o nome de Emanuel” – Is 7, 14.


Durante 9 meses Jesus foi gerado no ventre de Maria. Ele não foi criado, porque existia antes mesmo de nascer, antes de todos os tempos (cf. Jo 1, 1.10.14). Jesus foi gerado consubstancial a Deus. Os estudos sobre a vida de Jesus não dizem muito além do que a Bíblia pode dizer. Não se sabe ao certo como foi a vida de Jesus antes de seus 30 anos, ou melhor, antes de Ele ter-se revelado naquele casamento em Caná da Galiléia (cf. Jo 2, 1-12). Aquela revelação ao transformar água em vinho não aconteceu por acaso; havia sim uma pretensão divina ao instigar Maria. Maria não diria “Eles não têm mais vinho” somente por piedade de um casal pobre e religioso, como fazem as bisbilhoteiras das festas quando falta alguma coisa. Era a hora de “dar à luz” a Jesus! E para dar à luz, a mulher não escolhe o momento e o lugar. Tudo fica a critério de Deus. Sendo assim, nada melhor que começar num casamento, uma vez que o fim último de Jesus é “viver as bodas” com sua esposa eleita – a Igreja – para toda a eternidade (cf. Ap 19, 7; 21, 9ss).

“Fazei tudo o que ele vos disser” e, então, a luz será dada!


Dessa forma, dizer que Maria é a “mãe de Deus” é reconhecer que no plano humano Maria deu à luz a Jesus, depois dos 9 meses que Ele passou em seu ventre; e no plano divino Maria também deu à luz a Jesus, depois dos 30 anos que passou em seu seio. Não se trata de impor um dogma, trata-se de acreditar que Jesus-homem veio ao mundo por meio de Maria e Jesus-Deus também veio ao mundo por meio de Maria. Depois, ele cresceria sem precisar do cordão umbilical de sua mãe! Essas proposições baseiam-se no fato de que Maria sabia que seu Filho possuía as naturezas humana e divina, mas o mundo não o conhecia a não ser apenas a natureza humana. Por isso, era preciso “dar à luz” de forma decisiva. E tudo isso fazia parte das pretensões divinas. Em tudo, era Deus quem pretendia que Maria desse à luz a Jesus.  Não era desejo de uma “mulher qualquer” que o mundo conhecesse a essência de seu filho, mas sim do próprio Deus. Para isso temos duas testemunhas: o anjo Gabriel e Isabel, a prima de Maria. Disse o anjo Gabriel: “O Espírito Santo virá sobre ti (...); por isso, o Santo que nascer será chamado Filho de Deus”. (Ora, se Ele será chamado “Filho de Deus”, Maria é mãe de quem?) E, explicitamente, disse Isabel: “Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?” (cf. Lc 1, 35s.43).


Convenhamos. Tudo o que conhecemos sobre Maria mãe de Jesus vem de Deus, vem das linhas e entrelinhas da Bíblia. A Igreja não proclamaria que Maria seria “Mãe de Deus” apenas para distinguir quem seria católico ou como se a partir daquele momento devêssemos acreditar que Maria seria a “Mãe de Deus”. As decisões de Deus são eternas! Desde a eternidade, era Deus quem pretendia nascer de uma mulher, com o fim próprio de salvar a Humanidade de sua própria sentença eterna “o salário do pecado é a morte” (Rm 6, 23). Foi Deus quem criou Maria sua mãe, sem Ele deixar de ser Deus e sem ela deixar de ser humana. Ninguém escolhe o pai e a mãe que tem. Mas, foi Jesus quem teve o privilégio de escolher, dentre todas “as” mulheres, sua própria mãe. Se Jesus escolheu, claro, Ele sabia por que Maria devia ser sua mãe, por que ela devia ser “cheia de graça”, “bendita entre todas as mulheres” (cf. Lc 1, 28.42).


E onde fica o Espírito Santo nisso? Fica na sucessão das gerações que reconheceria de quem foi dada à luz da salvação. Fazer parte dessa geração é fazer parte da “geração da mulher”, daquela que “dá à luz”, semelhante a Deus. Quem disse que Maria é “Mãe de Deus”? Todas as gerações que a chamam de “bem-aventurada”.


Comentários

Minha foto
Franklin Rodrigues
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil

Mais acessadas

Deus dialoga com a humanidade antes de qualquer pecado

Estou pensando em Deus

Os gestos são mais sagrados do que você imagina

Jejum convocado pelo presidente

Opinião sobre a IDEOLOGIA DE GÊNERO

Falar ou calar? O perigo do milagre

Falsos Profetas Hoje

Oração pelos mortos, procede ou não?