Evangélicos seriam os verdadeiros filhos de Deus?
A cantora
gospel Aline Barros havia provocado polêmica ainda em 2016, ao insinuar que os evangélicos seriam os
verdadeiros filhos de Deus, ao passo que os católicos não. Uma frase dita
num twitter, por causa da quarta-feira de cinzas, acabou soando mal
para uma das cantoras evangélicas mais bem pagas no meio gospel.
Apesar de ter pedido desculpas, algumas explicações
precisam vir à luz tanto de católicos quanto de evangélicos.
Em Mt 4,17 dá-se
início ao ministério de Jesus com o anúncio: “Arrependei-vos, porque está
próximo o Reino dos Céus”. Em diversas outras situações durante a narrativa
evangélica, Jesus volta a pregar o arrependimento como condição primeira para
receber o Reino de Deus. Por todo o seu ministério, antes de subir aos céus
encerrando sua missão na Terra, Jesus repete, e repete de novo e repete mais
uma vez o apelo ao arrependimento, marca registrada de sua pedagogia, desde
quando nasceu e viveu, passando pela crucificação e ressurreição. O apelo ao
arrependimento foi continuado pela Igreja, através dos frutos de conversão
colhidos ao longo dos tempos, como também pelos documentos assinalados pelas
principais testemunhas da época, que eram os Apóstolos.
Toda vez que
você vai a uma missa, logo no início da celebração, há o apelo ao
arrependimento. Se você for à missa num domingo pela manhã, ou de meio-dia, ou
no final da tarde ou à noite, o mesmo apelo ao arrependimento continua lá. Se
você for a uma missa em dia de semana ou em qualquer mês durante o ano, o
apelo continua o mesmo. Com a quarta-feira de cinzas não seria diferente, até
porquê longe de mero simbolismo, é nessa ocasião que a Igreja apenas reforça o
apelo ao arrependimento com mais profundidade.
Todo dia é dia
de conversão e de anúncio do Evangelho. Um cristão convertido e convicto de sua
missão sabe que não precisa de uma “quarta-feira de cinzas” para se arrepender
de seus pecados hodiernos. Esse raciocínio superficial poderia ter sido base
para explanações não só da cantora Aline Barros, como de tantos pregadores que
se utilizam desse tipo de artifício para gerar adversidades entre cristãos. Um
personagem recorrente como Francisco de Assis dizia: “Compreender do que ser
compreendido”. Essa frase é uma extensão daquilo que Jesus ensinou sobre “não
julgueis e não sereis julgados, não condeneis e não sereis condenados...”. E
nesse sentido, se o cristão, qualquer que seja sua denominação, buscasse compreender
mais do que ser compreendido, quem sabe houvesse abertura para explicações mais
profundas sobre a fidelidade cristã renovada em cada apelo à conversão?!
A quarta-feira
de cinzas é um dia como outro qualquer, com suas 24 horas, parte voltado para o
sol e parte, para a escuridão da noite. Não é só nessa data que a Igreja renova
o apela à conversão. Em toda celebração eucarística, a Igreja faz o apelo ao
arrependimento. Se esse apelo não soa tanto quanto poderia ser noutras
denominações ditas cristãs, é aí que se encontra uma oportunidade de compreender
a carência da Igreja, ao invés de condená-la. Essa distinção de espiritualidade
entre denominações diferentes às vezes gera um ar de privilégio para uns,
enquanto outros permaneceriam na ignorância de rituais sem sentido. Quando esse
sentimento de privilégio surge, é fácil a tentação do fechamento com a
não-partilha dos frutos de conversão.
A exigência para
repetir rituais vem da Lei de Deus. Se um cristão tem sensibilidade para uma compreensão
mínima, é preciso atentar para aquilo que Jesus disse: “Não penseis que vim
revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno
cumprimento” (Mt 5, 17). Apesar de os cristãos não serem obrigados a decorar
toda a Lei de Deus, mas sim resumir-se nos dois maiores mandamentos que Jesus ensinou,
nem por isso aquela “antiga lei” estaria fadada ao esquecimento. A tentação de relegar
a Lei de Deus se sustenta na incapacidade de compreensão e contextualização adequadas,
próprias menos de um judeu do que de um cristão. É contradição um cristão afirmar
que tem fé em Jesus que foi um judeu e ao mesmo tempo negar o pleno cumprimento
da Lei de Deus.
Evangélicos no
Brasil são diferentes de todos os evangélicos do resto do mundo, e isso não seria
diferente com a cantora Aline Barros. A “conversão evangélica” não deveria ser
motivo de revolta interior, com insinuações provocativas que geram polêmicas vingativas
ou destrutivas. Infelizmente, sentir-se privilegiado e com a mente fechada para
uma compreensão maior é o que tem alimentado as disparidades entre católicos e
evangélicos ao longo dos anos. Isso porque não é à toa que todos os anos os
judeus celebram a páscoa ou os mulçumanos o ramadã fielmente, assim como católicos
ortodoxos e romanos mantêm-se fiéis à celebração da ressurreição. O fato de
repetir o ritual exigido pela Lei de Deus não quer dizer que sejamos capazes do
pleno cumprimento da Lei, assim como foi Jesus, mas sim que nos tornamos exemplos
daquele que foi capaz de cumprir toda a Lei.
Um dos frutos
da conversão após o arrependimento é a esperança. Isso porque durante a
conversão, os principais sentimentos e pensamentos são realinhados ao propósito
de Deus. Contudo, haverá uma porção que não será atingida pelo próprio Deus,
mas sim, se tornará necessária para uma atitude de luta interior e consciente. É nessa porção
que se encontram resquícios de lembranças e sentimos desalinhados. Por mais que
se esforce, o cristão não conseguirá apagar ou mudar seu rumo, senão através da
esperança. É a esperança no caminhar passo a passo que se torna um tratamento
eficaz de conversão aprofundada.
Sendo assim,
como se espera de católicos, também temos esperança de que evangélicos se
convertam, mas se convertam com profundidade e conheçam aquela verdade dentre
as entrelinhas da Palavra de Deus que ainda não conhecem. Temos esperança de que se convertam para uma
compreensão maior de sua missão, porque os evangélicos no Brasil acham que
compreender a verdade com profundidade os faria voltar para a Igreja Católica,
desprezando assim o propósito de Deus, se os quis da forma como são. É esse medo burro que os separa de uma compreensão maior, sem deixar de ser evangélico. Se isso não
for tornar-se filho de Deus, pelo menos temos esperança. E temos aquela
esperança de que Aline Barros precisaria testemunhar como cristã e ainda não fez como
“filha privilegiada”. A começar pela primeira bem-aventurança que Jesus anunciou...

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