Os gestos são mais sagrados do que você imagina

Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o,
partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo:
Tomai e comei, isto é meu corpo.

Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo:
Bebei dele todos, porque isto é meu sangue,
o sangue da Nova Aliança,
derramado por muitos homens em remissão dos pecados.

Mateus 26,26-28


Pergunta: O que significa "benzer"? Por que Jesus benzeu o pão? Por que Jesus "rendeu graças"? Por que Jesus executou um gesto que por si só encerra algo sagrado? Acaso os gestos podem se tornar sagrados? 

Lembra que Jesus havia dito bem antes desse episódio, ainda no discurso das bem-aventuranças em Mateus 5, que não tinha vindo "abolir a lei"? Pois é, existem particularidades na Lei de Deus que exigem alguns gestos concretos e que por mais que aqueles sacerdotes ou religiosos da época como os fariseus se dissessem "fiéis", Jesus fez questão de deixar registrado esse gesto ao partir o pão, além de tantos outros gestos dentre os milagres que fez em meio ao povo.

Alguns gestos como um abraço, um aperto de mão, um olhar sincero, um ouvido atento e respeitoso refletem bem aquela "terra boa" que dá bons frutos... E nem sempre valorizamos gestos como esses, que compartilham nossos sentimentos num mundo cada vez mais egoísta. A propósito, esse egoismo do mundo ficou somente lá fora da igreja? Ou os cristãos facilitaram as sombras das trevas para que as igrejas hoje vivam uma angústia de como viver em comunidade com gestos concretos de unidade cristã?

É bem verdade que ouvimos falar já faz uns 500 anos da livre interpretação bíblica, não é?! Bem, na prática, a livre interpretação sempre existiu, desde que houvesse um ouvido atento à Palavra para um processo de conversão, como os exemplos de São Paulo e de Santo Agostinho (ambos convertidos por volta dos 40 anos de idade). O que talvez não houvesse era uma disposição para mudanças necessárias através de gestos concretos lá na Idade Média, de um Cristianismo cada vez mais arcaico e petrificado. Talvez por isso, um choque de realidade tenha sido necessário.

No entanto, o que de sagrado existe sempre foi e atravessou o tempo e as gerações, no mesmo apelo aos gestos concretos que demonstrem a linguagem do evangelho. Os gestos também são uma linguagem corporal. São outra forma de testemunhar a fé em Cristo. Existem exemplos de cristãos que interiorizam o silêncio e apenas sorriem, abraçam e partem o pão. Ao passo que outros alardeiam em seus microfones, apropriam-se de grandes mídias, aprendem 8 ou 10 línguas diferentes e não conseguem converter um ateu. Por que será? Porque a mensagem do Evangelho não precisa que ele converta. É o Espírito Santo quem converte, não é?!

Se é o Espírito Santo quem converte, por que você não acredita no poder dos gestos como linguagem concreta do Evangelho? Discursos teológicos e minúcias sobre doutrinas valem o quê diante de um abraço ou de um pão repartido? No discurso escatológico do fim dos tempos, Jesus é claro e objetivo, sem nenhum arrodeio, ao dizer que nenhum dos nossos pecados será contabilizado no julgamento final. Isso é verdade? Bem, para Jesus os gestos valem mais do que todo o seu conhecimento sobre santidade, doutrina e vulgaridade: "Quando tive fome, deste-me de comer?... Quando estive preso ou doente, fostes me visitar?..."

Bem, esse é o critério determinante para a "salvação". Não é que o trabalho dos teólogos e escritores fosse em vão, é que não adianta todo o conhecimento e ciência, "se não houver [o gesto de] amor" (1Cor 13, 1ss).




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