Conversão: o pão nosso de cada dia
Existem pessoas que se aborrecem mesmo quando alguém fala de Deus de forma a atingir seu status. Das tantas vozes que surgem querendo ter sua razão numa porção de fé sem consistência, é notório o número soberbo dos que tornam relativas as atitudes divinas na história presente, chegando a afirmar, inclusive, que Deus não se vinga ou que Deus não castiga, em prol, tão somente, de manter uma linha de interpretação concebida no pietismo. Isso se deve a uma herança de confusões entre termos e seus significados originais em relação à percepção transcendental dos atos divinos. É como se ao revelar, de fato, a verdade, tal revelação poderia causar interpretações particulares e assim, novamente, se cairia numa infindável confusão de significados.
Com isso, temos um papel importantíssimo na infindável confusão de significados por parte de nossos irmãos protestantes ao divulgarem a independência às consulta e interpretação da Bíblia. Isso devido ao número mais que evidente de pessoas que acabam por crer cegamente de forma arrogante, tomando trechos isolados da Bíblia, sem considerar sua relação com a evolução histórica e, inclusive, com a totalidade da intenção do Autor. A reivindicação protestante, no entanto, não causou o que o Autor poderia pretender ao assinalar seus decretos e profecias, uma vez que ao nos dirigirmos às fontes, nem sempre poderíamos encontrar confusão, se tivéssemos como base aquela fé autêntica, capaz de transcender o que achamos que as pessoas nos dizem sobre Deus. Assim, talvez, qualquer “vento” não seria capaz de assinalar formas de conversão, determinando com isso modos de vidas plasmados à conveniência. É conveniente sim ser Igreja em seu sentido último que é ser cristão, como uma noiva à espera do Amado. Mas, ser Igreja encerra o chamado à conversão permanente, nunca acabada neste mundo, disposta às obras que correspondem a uma doação integral – não a uma conversão de fachada. Doação esta que corresponde nada mais nada menos que a um grito de socorro contra esta geração de infiéis, pervertida e idólatra.
Ser Igreja é buscar se manter em conversão, é buscar manter a lâmpada acesa, antes que o noivo retorne e a encontre apagada – não se podendo entrar para as núpcias (cf. Mt 25, 1-13). Ao darmos uma volta ao mundo com olhar o mais cético e descrente possível, não precisaremos ir muito longe para perceber o que o Autor pretende fazer, ao ouvirmos sua voz a dizer:
“Iahweh viu isso e ficou enfurecido, rejeitando seus filhos e filhas. E disse: ‘Vou ocultar-lhes o meu rosto e ver qual será o seu futuro! Pois são uma geração pervertida, são filhos que não têm fidelidade! Provocaram meu ciúme com um deus falso, e me irritaram com seus ídolos vazios; pois vou provocar seu ciúme com um povo falso, vou irritá-los com uma nação idiota! Sim! O fogo da minha ira está ardendo e vai queimar até ao mais profundo Xeol; vai devorar a terra e seus produtos, e abrasar o alicerce das montanhas. Vou lançar males sobre eles, e contra eles esgotar as minhas flechas! Vão ficar enfraquecidos pela fome, corroídos por febres e pestes violentas; porei o dente das feras contra eles, com veneno de serpente no deserto. Fora, a espada lhes tirará os filhos e dentro o terror se instalará; perecerão todos: o jovem e a donzela, a criança de peito e o velho encanecido’” Dt 32, 19-25.
Fazendo sua interpretação “particular” independente, acaso você seria capaz de se colocar como ouvinte e perceber que não há dificuldade alguma em entender o decreto de Deus?! Sim, Ele executa o decreto, porém nem sempre percebemos “como”, justamente quando não se tem aquela fé autêntica. Veja só:
“Pois é uma nação sem juízo, neles não há discernimento. Se fossem sábios o entenderiam, saberiam discernir o futuro” Dt 32, 28-29.
Uma dada confusão causada entre termos e significados originais se refere à figura grotesca (e às vezes tratada como ilustre) do Adversário chamado “Satanás”. Aqui valeria toda uma explanação em relação ao sentido último da conversão cristã. Converter-se também é conhecer a verdade, para que a verdade liberte das formas como a figura de Satanás foi concebida. Ainda hoje, certos cristãos, empolgados com o poder sobre certos “sinais”, acabam atribuindo a Satanás o que adviria de Deus. Não percebem que clamam em vão o nome de Deus contra o mesmo Deus que executa seus próprios atos. Com isso, ironicamente, Satanás “rouba” a nobreza dos atos divinos, pelo temor que lhe é atribuído, quando Deus mesmo é quem faz:
“E agora, vede bem: eu, sou eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou eu que mato e faço viver, sou eu que firo e torno a curar e de minha mão ninguém se livra” Dt 32, 39.
Necessário seria conhecer o Adversário como ele é, e saber que seu ponto fraco é a cruz de Jesus Cristo, seu ponto fraco é a realização da vontade de Deus. Não temos como conhecer o Adversário através do que se diz dele aleatoriamente, a não ser pelo conhecimento da Palavra, confrontando uma fé verdadeira. Recorde-se daquela brincadeira de criança do telefone sem fio. Dessa forma também se dá a figura de Satanás quando alguém lhe diz algo que outra pessoa tinha dito, porque achava que eram assim – e assim o próprio Satanás busca manter sua identificação oculta e confusa contra o mesmo Deus que ama o ser humano e, por ele, decreta, inclusive, castigos para a conversão. Os castigos nada mais são que uma última tentativa de conversão em conseqüência da recusa ao amor de Deus. Por isso, é necessário fazer referência direta à Palavra de Deus, justamente a fim de que a fé deixe de ser cega e ignorante, tendendo à imbecilidade. Uma fé autêntica percebe quando Deus executa o ato e consequentemente, chama à conversão, pois a conversão é conseqüência de uma disposição à escuta da Palavra de Deus. Porém, a fé cega chama de “Satanás” qualquer coisa que incomode ou que tente alterar seu cômodo estado de inércia, inclusive quando é executado o decreto contido no mandamento:
“Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás, porque eu, Iahweh teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniqüidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos” Ex 20, 5-6.
Ou seja, quando Deus castiga a perversidade dos pais em seus filhos, muita gente acredita que é coisa de “Satanás”, porque alguém lhe tinha dito de outra pessoa e assim fora acostumado a acreditar. Particularmente, recebi uma revelação divina de que muitos homossexuais e lésbicas, muitos jovens drogados ou viciados na bebida herdaram simplesmente o pecado de seus pais – agora de forma “evoluída”. Porque, quem ama pai e mãe mais do que ao próprio Deus só pode praticar o que agrada a seus pais, no caso, a perversidade e a falta de juízo, com o extremo intento do prazer no mal (cf. Mt 10, 37s). Nesse sentido, ser homossexual ou lésbica estaria isento de culpa direta pelo pecado, uma vez que o pecado gerado origina-se da herança dos pais. Um drogado ou um viciado na bebida nada mais é que uma vítima inconsciente daquilo que rotularam “ações de Satanás”, porém deveria ter sido atribuído a Deus. Pois, no momento em que alguém se depara com a verdade sobre sua situação, tal verdade é capaz de libertá-lo da mesma situação envolvida. Entretanto, se a verdade for encoberta, o indivíduo continuará acreditando que isso e aquilo é coisa de “Satanás” – não se tornando capaz de se libertar daquilo que chamaram “maldição” ao invés de “castigo”. Maldição é diferente de castigo.
Interessante, também, é a forma como os judeus se referem à figura de Satanás, tendendo à originalidade do significado do nome em hebraico “shatan”: adversário. Como tal, o “adversário” surge tanto em espécie através de uma entidade decaída, quanto no reflexo que suas ações causam no inconsciente, gerando atitudes e modos de pensar meio que “automáticos” e ao mesmo tempo, artificiais. Uma pessoa pode se tornar o que os cristãos chamam de “instrumento do diabo” simplesmente pelo modo contínuo de pensar contra a forma como Deus age – que muitas vezes não precisa da presença em espécie da entidade satânica. Ao desconhecer a Palavra de Deus, quantas pessoas inconscientemente não ficam “contra” o próprio Deus quando Ele executa sua justiça?
Em 2005, na cidade de Campinas/SP, uma turma de amigos embriagados pretendia sair com uma jovem para uma balada. Num último instante, a mãe da jovem lhe disse antes que partisse de casa: “Filha, vai com Deus; que Ele te proteja”. Imediatamente, a filha respondeu: “Só se Ele for no porta-malas, pois aqui (no carro) já está lotado”. Algumas horas depois, a mãe recebeu a notícia de que o carro que levara a turma sofreu um acidente e que todos morreram, inclusive sua filha; porém, o porta-malas ficou intacto e nele continha uma badeja com 18 ovos inteiros!(*) Atitudes como a da resposta dessa jovem à sua mãe, claro, demonstraram o reflexo automático das ações satânicas. Não era preciso que ela “estivesse com demônio”, tratava-se tão somente de uma atitude automática que gerou conseqüências para quem se colocava “contra”, exatamente como um “adversário” – já que a pobre mãe lhe dava a bênção enquanto recebia uma afronta.
“Não penseis que vim trazer paz à terra. Não vim trazer paz, mas espada. Com efeito, vim contrapor o homem ao seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Em suma: os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” Mt 10, 34-36.
A fé verdadeira não se detém em si mesma, ela é capaz de transcender as realidades dos outros enquanto pessoas abertas à transcendentalidade. Nesse sentido, precisamos uns dos outros, a fim de conhecermos como Deus age na vida do outro. Pois, se Ele chama de “infiéis” e “rebeldes” aqueles que abandonaram seu compromisso, é claro que a Palavra nos é revelada para nossa conversão. Caso contrário, como um “rebelde” daria atenção à palavra de Deus? Como um “infiel” manteria seu compromisso? Se escutarmos a Palavra e com ela mantivermos uma conversão contínua, haveremos de nos livrar da herança dos “rebeldes” e “infiéis” e consequentemente, da vingança e dos castigos prometidos.
Ora, muitos de nós cristãos pretendemos conhecer a verdade, conhecer aquilo que Jesus diz de si mesmo – não de uma forma rotulada tendendo à imitação cega, mas sim à originalidade do que Jesus foi, é e será capaz de fazer diante de uma fé autêntica. Lá na oração do “Pai nosso”, dizemos: “... o pão nosso de cada dia, dai-nos hoje...”. E quando Jesus ensinou essa oração, ele sabia que esse pão era “nosso”, não era “meu”; e que como alimento esse “pão” tinha o poder de libertar da fome, também da fome do conhecimento da verdade. Se o pão fosse “meu”, a libertação não haveria sentido; mas por ser “nosso”, a libertação toma sentido e consistência e nos revela de forma inefável como Deus é único em todos através daquela doação integral.
Mas, a oração não acabou aí em si mesma; ela transcende o tempo se referindo ao tempo de “hoje”, implicando a fé de que a cada “hoje” ser-nos-á dado o pão que não é “meu”, que é “nosso”. Enquanto Satanás promove uma fé cega tendenciosa ao individualismo, Deus exige a fé autêntica, capaz de repartir o pão. A cada “hoje” precisamos desse pão repartido como numa contínua necessidade de conversão. Daí porque conversão implica continuidade do conhecimento da verdade, do conhecimento sobre Deus, como numa necessidade última de tomar um alimento sem o qual tanto o corpo quanto a alma decaem inevitavelmente. Pois, enquanto o pão alimenta o corpo, a partilha alimenta a alma. E uma vez repartido, esse pão gera a fé, não a “minha” fé particular, mas a fé partilhada da Igreja – a fé daquela que espera seu Amado.
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