Aonde a Palavra vai
Domingo é dia de missa, não é! Dos tantos fiéis que se encontram nas igrejas, havia um homem que costumava ir à Igreja todos os domingos. Era alguém um tanto morgado, sonolento, que se retardava, desapercebido do que se passava em meio às cerimônias. Certa vez, a situação em sua vida ficou comprometida: seu salário quase não vencia as dívidas, sua esposa ficou doente e seus filhos desviaram-se para a rebeldia. Mesmo em meio àquela crise, continuava a frequentar sua Igreja como sempre.
Certo dia, durante a homilia, ouviu-se do padre que ele representava Jesus aqui na Terra e que ele (Jesus) se importava com quem vivia alguma situação desgostosa na vida. O homem, escutando aquela palavra, voltou para sua casa pensativo e ao mesmo tempo aliviado de certas preocupações.
Semanas foram-se passando, e nada de a situação mudar; ao contrário, depois da rebeldia dos filhos vieram os problemas do trabalho. Mais uma vez, no outro domingo, lá estava o homem na Igreja a prestar atenção no que o padre agora falaria. O discurso voltou-se, naquele dia, para o tema das economias financeiras: “felizes eram os pobres em espírito”. Com isso, aquele homem olhou para as vestes do padre e começou a se questionar: “Como pode um homem como este se vestir com uma roupa tão cara e falar de pobreza?”. E voltou para sua casa.
Durante a semana que passava, dos problemas do trabalho veio o fim do mês com todas as contas para pagar. Mal sobrava dinheiro para comprar o que queria. Jantar fora era uma utopia para o final de ano ou só quando seu casamento aniversariasse. E no domingo que advinha, lá estava o homem a escutar as palavras daquele mesmo padre. Desta vez o tema era sobre a esmola, a generosidade, a fraternidade e a oração. Belas palavras do padre! Nem imaginava o que se passava na cabeça de um dos fiéis da Igreja: aquele homem, em meio às contínuas crises de sua vida, se perguntava, resmungando: “Esse padre fala de dar esmolas, mas ele mesmo é o primeiro a não dar; fala sobre ser generoso, mas ele mesmo recebe o dízimo e não o reparte com quem tem contas a pagar; fala sobre ser irmão, mas ele mesmo condena certas uniões ilegítimas e ainda fala sobre oração como se, com isso, realmente Deus escutasse um pobre lascado como eu... Palavras, meras palavras, não mais que isso...”. Dessa vez, o homem voltou para casa um tanto chateado com as palavras do padre, muito embora aquilo pudesse servir para amenizar suas tensões.
As dúvidas começaram a surgir como nunca, e as oportunidades de passar um domingo diferente também. Aos poucos ele foi abandonando a Igreja, deixando de lado seus valores espirituais e se entregando a orgias casuais. Em meio ao que se passava, um de seus filhos veio a falecer, vítima da violência citadina. E justamente era o filho que mais amava, o que mais estava próximo de si, o mais velho dos irmãos.
Em meio às exéquias, sua esposa mandou chamar o padre da paróquia daquele local, que prontamente se fez prestativo para ungir o cadáver e rezar por sua alma diante de Deus. O homem estava fora; quando entrou em casa e viu o padre ungindo o corpo do filho e rezando por ele, num instante lhe sobreveio aquela indignação, contudo ainda um pouco se deteve em meio aos pensamentos que lhe vieram num repente: “Além de tudo, esse padre ainda se preocupa com mortos! Quando meu filho estava vivo, ele nunca veio lhe dar um conselho para que saísse do mundo da violência. Agora que já é tarde, depois de tantas crises que já passei, ele surge como se nada tivesse acontecido, como se a morte fosse apenas um mero sono!”. Intentou o homem levantar a voz contra o padre para dizer tais palavras, porém, subitamente o padre voltou-se para ele com um olhar de misericórdia e lhe declarou: “Meu filho, não precisa dizer nada: Eu te conheço...”. Espantado, o homem viu-se não mais diante daquele padre, mas do próprio Jesus que lhe falava.
E então, Jesus lhe disse: “Quando ouviste que me importava com tua situação na vida, quando ouviste que os pobres de espírito eram felizes, quando ouviste que era necessário dar esmolas sem trombetear, a ser generoso na hora do dízimo, a não julgar pelas aparências e a buscar falar com Deus como ensinei, tudo isso eu não te disse para ficar lá naquele momento da missa, pois depois da missa vem a missão! Enquanto tu viste o padre bem vestido, não viste o que ele fez por mim; enquanto escutaste as palavras dele, não me ouviste quando quis te acompanhar pelas estradas da vida. Hoje, tu vês teu filho morto, mas eu sei que ele dorme, depois de tanto esperar por mim que queria vir até ele através de ti, mas tuas dúvidas não me deixaram vir até ele para libertá-lo. Quando o padre fala sobre mim, sou eu que lhe peço para ficar onde está, pois é aí que me levanto para seguir com quem me ouve”.
Foi então que o homem compreendeu que a palavra é um canal por onde Deus vem até o homem; se a mesma palavra o acompanha, é Deus quem o chama a segui-lo passo a passo. Pois, quando alguém fala de Jesus, fala daquilo que Jesus fez em sua vida; e o próprio Jesus se faz presente quando alguém o ouve.
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