Falsos Profetas Hoje

Quando se fala em Apocalipse, lembra-se muito facilmente de alguns elementos escatológicos, como a besta de sete cabeças, o falso profeta e o número 666. Por ser um livro com alto grau de complexidade de significância, o Apocalipse, ao mesmo tempo que anuncia a volta de Jesus, tornando-se assim um protoevangelho, também gera muita criatividade para quem souber manipular discursos sob diversos pretextos. Seu conteúdo, longe de uma análise histórico-científica/teológica, tornou-se até bem mais solicitado que qualquer outro livro que faça parte do Novo Testamento, inclusive dos próprios evangelhos. A ameaça pelo “fim dos tempos” é isca para sabotar a fidelidade cristã, tornando a conversão um produto economicamente rentável.



O dom da Profecia é semelhante à vocação de um padeiro que sabe os segredos para preparar um delicioso pão. Tudo tem seu tempo, tudo obedece ao tempo estabelecido: o trigo, a massa preparada, os ingredientes, o cozimento e ainda, o tempo para comer antes de se estragar. Exercer a profecia é como quem prepara pão, mas na condição de que tudo obedece ao tempo estabelecido. É um dom altamente sensível, porque atende diretamente ao pedido de Deus. Ao profetizar algo e aquilo se realizar, é como se o padeiro se sentisse satisfeito por todos os seus clientes se deliciarem do pão. Profetizar é uma profissão e como tal, merece sim recompensa. Porém, assim como o padeiro corre o risco de reaproveitar uma massa estragada, também existe o perigo de profetizar sem estar sintonizado ao que Deus pediu.

Brincar de ser profeta falando de Deus ou fazendo da própria imagem uma referência profética é algo bastante grave. Ao revelar uma profecia, Deus exige que suas palavras sejam medidas sem falta ou exagero. Contudo, diante de uma cultura pró-apocalíptica semeada pelos evangélicos, corremos o risco de esquecer a referência à fidelidade e com isso, falarmos algo exigindo a outorga divina, sem que Deus tenha permitido. Esse tipo de pecado provoca outros que, porventura, se desencadeiem por impulso involuntário em quem tiver “menos consciência” e der crédito àquela referência profética.

Exemplo. Em 2007, uma jovem estava participando de encontros numa igreja e recebeu de seu pastor a profecia de que “Deus lhe pedia tudo, inclusive a vida”. Essa jovem deu relógio, celular, computador e roupas pra igreja, continuando a sentir que algo mais precisava dar pra “Deus”. Sua inquietação levou a tomar de seus pais idosos uma TV para doar pra igreja e quando os pais foram reclamar, ela acabou matando os dois, pai e mãe, crendo que Deus pedia “inclusive a vida”. De fato, a profecia tinha um intuito muito mais profundo do que ir contra os mandamentos de Deus: “Não matarás... não desejarás nada que pertença a teu próximo... honra teu pai e tua mãe...”. A jovem não entendeu que dar “tudo a Deus inclusive a vida” era consagrar-se livremente e assumir a missão de evangelizar pelo mundo à fora.

Quem recebeu a profecia e foi o responsável por distorcer sua interpretação? Sim, aquele pastor que dentre muitos, não foi o único a cometer tamanho pecado. Existem outros que quase presidem o Brasil, escondendo-se por trás de apadrinhamento; eles não foram os primeiros e talvez não sejam os últimos a distorcer uma suposta profecia ao bel prazer. Mesmo incorrendo em tamanha gravidade, é possível esperar que esses tais “falsos profetas” se arrependam e se convertam.


Exercer a falsa profecia necessariamente não quer dizer que o fulano tornou-se símbolo apocalíptico de que o fim dos tempos estaria perto. Desde o primeiro século que a Igreja gerou líderes fiéis e de seu próprio seio, saíram aqueles que se acharam “escolhidos” contra a comunhão da Igreja e assim foram classificados como “hereges”. Heresia, em outras palavras, é exercer o dom da profecia de forma exclusivamente restrita e não em comunhão com a Igreja. Nos dias atuais, pelo bem da consciência em vista da unidade cristã em primeiro lugar, não é muito conveniente enumerar ou classificar diversos tipos de heresia no ambiente de igreja, porém existem aquelas que ferem gravemente até mesmo o sentimento de pertença a uma família, se essa família tiver membros de igrejas diferentes.

Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo. E seduzirão a muitos.

Levantar-se-ão muitos falsos profetas e seduzirão a muitos.

Então se alguém vos disser: Eis, aqui está o Cristo! Ou: Ei-lo acolá!, não creiais.

Porque se levantarão falsos cristos e falsos profetas, que farão milagres a ponto de seduzir, se isto fosse possível, até mesmo os escolhidos.


São Mateus 24,5.11.23-24


Bem, o roteiro bíblico esclarece e nos deixa seguros sobre como discernir, ou seja, como classificar se uma profecia estaria a favor ou contra as exigências do próprio Jesus. Assim como no primeiro século, nos demais séculos sempre houve falsos profetas ou “hereges” e o fato de eles surgirem não faz daquele tempo o “fim do mundo” propriamente. Digo isso porque a diferença entre um verdadeiro profeta e um falso profeta está naquele exemplo que foi João Batista, “ao preparar os caminhos do Senhor”. Um verdadeiro profeta não exige atenção exclusiva para si, mas sua profecia revela a pretensão divina em comunhão com os demais cristãos. E como tal, o fato de haver falsos profetas, isso não adianta ou retarda o relógio de Deus sobre seu próprio tempo estabelecido para o “fim dos tempos”, pois os falsos profetas não seriam exclusividade para Deus, diante de seu propósito de conversão do mundo.

Interpretação paralela: no Apocalipse, o falso profeta faz aquilo que agrada à besta de sete cabeças. Se você trocar a “besta de sete cabeças” pela economia mundial, consegue visualizar quem usa o nome de Jesus para lucrar economicamente? Tire suas próprias conclusões sobre os falsos profetas misturados no meio do povo...



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