O amor não é amado

Há cerca de 800 anos, no devinir do século XII para o século XIII, um belo jovem, no auge de sua vitalidade, se apaixonara pelo Amor. Como assim pelo Amor? É claro, a distância dos anos parece surtir um efeito típico de quem encontra mais um motivo para relaxar o que de atual o exemplo desse jovem desperta. Pois é, o Amor despertou nesse belo jovem sua atração gravitacional, o que provocou uma típica revolução em sua vida.

Ao se deparar com a beleza ímpar do Amor, o belo jovem percebeu que não havia beleza nesse mundo que chegasse perto da incomparável beleza do Amor. Decidiu, pois, demonstrar para todo o mundo exatamente o contrário, como num desafio entre a aparência e a essência, e se despiu de toda e qualquer forma que encontrasse em seu próprio corpo e que lhe trouxesse a idéia de beleza: nada se equipararia à beleza do Amor que aquele jovem encontrou. Enquanto o mundo naquela época, e também na nossa, evidenciava as formas sob a forte influência que ainda sobrevivia dos deuses greco-romanos, aquele jovem não tinha se encontrado apenas com o aspecto do Amor manifestado por aquela beleza: ele transcendera o tempo e o espaço para imergir na essência da beleza do Amor. Aí já não havia mais razão de lógica entre classes sociais, entre etnias, idades, origens. O próprio Amor enquanto pessoa dispensava toda e qualquer comparação, justamente porque o Amor enquanto ser se compara única, inclusiva e exclusivamente com o próprio Amor enquanto pessoa.

Uma vez na qual aquele belo jovem se despira de toda a sua beleza por ter se encontrado com o Amor, a paixão extasiada que lhe pulsava a necessidade de estar imediatamente com o Amor o fez considerar tudo o que estava ao redor digno do mesmo Amor apaixonante que sentia, como numa embriaguez da alma que parecia não se acabar. É incrível isso, uma vez que no mundo a gente é levado a pensar que devia esconder, guardar ou mesmo criar um labirinto para que ninguém achasse aquele Amor que desperta na gente um novo horizonte. Talvez aceitemos isso justamente por não termos ainda irrompido os aparentes limites que nos envolvem e assim, encontrar a força que o Amor provocou naquele jovem ou, mesmo, não termos deixado que o Amor dignasse tudo o que está ao nosso redor. Cada pessoa tem sua justificativa, como aquele jovem teve a sua justificativa para amar toda e qualquer criatura com a mesma dignidade incitada, a ponto de chamá-las de “irmãos”. “Irmão vento”, “irmão sol”, “irmã lua”, “irmão cordeiro”, “irmão leão”, “irmã águia”, “irmã formiga”... Não havia razão de esconder o Amor: se os homens pensavam ser loucura, as criaturas recebiam aquela dignidade de irmão que somente o Amor podia manifestar.

Certa vez alguém encontrou o jovem pelo campo com aspecto meio tristonho e se admirou porque ele estava quase que em lágrimas. Ora, seria mesmo aquele que revolucionava sua época com o Amor apaixonante que manifestava a quem dignasse? Seria mesmo aquele que dizia ter-se apaixonado pelo Amor? Como, então, estaria daquela forma, como que soluçando e gemendo desconsoladamente sem se importar que os outros o vissem chorando?

É que o jovem havia feito uma longa viagem de cidade em cidade, amando como o Amor o amou, mesmo que isso lhe custasse uma estranha mistura de prazer e dor por sentir florescer em seu espírito uma ferida que o fazia lembrar-se do Amor constantemente. Nem sempre o Amor foi ouvido, nem sempre o calor apaixonante daquele jovem foi capaz de convencer. Pois, o Amor nem sequer despertava mais nas pessoas o interesse próprio de quem teria sido feito para amar. Amar parecia uma doença contagiosa, um tipo de distúrbio psicológico ou uma torpeza de quem não tem o que comer. E com aquela aparência então! Como o Amor habitaria o coração de um jovem desfigurado de sua própria beleza tão radicalmente?

Agora ele estava ali em lágrimas, chorando a paixão do Amor.

A pessoa, então, perguntou ao jovem:

_ Que aconteceu, irmão, por que estás chorando? (*).

O jovem, então, respondeu:

_ ... Quisera ser neste momento o maior oceano da terra, para ter tudo isso de lágrimas. Quisera que se abrissem ao mesmo tempo todas as comportas do mundo e se soltassem as cataratas e os dilúvios para me emprestarem mais lágrimas. Mas, ainda que juntemos todos os rios e mares, não haveria lágrimas suficientes para chorar o meu Amor. Quisera ter asas invencíveis de uma águia para atravessar as cordilheiras e gritar sobre as cidades: O Amor não é amado! O Amor não é amado! Como é que os homens podem amar uns aos outros se não amam o Amor? (*)

Séculos depois, na atualidade, o grito daquele jovem ainda ecoa a dizer: “O Amor não é amado”. O Amor não é amado pelos dirigentes da ONU; o Amor não é amado pelos presidentes dos países imperialistas; o Amor não é amado pela rainha da Inglaterra, pelos terroristas e pelos melhores atores e atrizes do ano. O Amor não é amado nos bares, nas danceterias e nos shoppings. O Amor não é amado nas universidades, nas escolas e nos quartéis; nos grupos e nas famílias divididas.

Simplesmente, o Amor não é amado porque existe uma exigência do Amor que ainda se restringe aos verdadeiramente corajosos e violentos, como foi aquele jovem há cerca de oito séculos – a ponto de se despir de toda a sua beleza. E essa exigência é fazer valer a vida para a eternidade. Aí se comprova que o Amor é eterno, pois quem ama o Amor experimenta desde já a eternidade: não há espaço, não há tempo, não há idéias que o contenha.

Quanto aos corajosos e violentos no Amor, eles são exatamente os poucos que Jesus falou que iriam entrar no Reino dos Céus. E creio que Francisco de Assis era um deles. Como estamos inseridos num drama a busca de felicidade no século presente, é preciso lembrar que Francisco de Assis não precisou que líderes de certas igrejas o induzissem a resolver a mesquinhez de seus problemas ou buscasse a felicidade na justificativa do lucro, das posses materiais. Simplesmente, Francisco de Assis, o jovem de nossa história, amou como o Amor o amou. E amar o Amor revoluciona qualquer tempo, qualquer época, qualquer pessoa (inclusive quem esteja ao redor!).

 

(*) Adaptação do livro: Orando com São Francisco de Assis – estudo bíblico. Edições Shalom. p.24.

 

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