O diabo paga a conta - comentário
Quando tratamos sobre solidariedade, alguns de nós muitas vezes possuímos respostas “prontas” e sem um esclarecimento convincente. Uns se detêm na mesquinhez de desculpas buscando se isolar de suas responsabilidades, enquanto outros se acostumam ao assistencialismo ingênuo que não provoca mudanças plausíveis de fato (para ambos os lados – tanto para quem ajuda quanto para quem é ajudado). Nesse intuito, comentar o texto “O diabo paga a conta” é uma tentativa de esclarecer seu propósito diante daqueles que possuem suas respostas “prontas”. Se bem que ultimamente essa palavra, solidariedade, tem-se manifestado como algo sobre-humano, de um valor, como que, exótico. Exótico no sentido de parecer estranho, isto é, solidariedade tem sido sinônimo de atitudes estranhamente corajosas. E onde se encontram os corajosos? Seria fácil encontrar uma resposta “pronta”?
Possuir uma televisão em casa deixou de ser um luxo e tornou-se uma necessidade, por incrível que pareça. Logo, logo poderá ser a vez da internet. Por mais que quiséssemos negar, essa necessidade não passa por algo simplesmente material, um objeto que funciona com eletricidade e via satélite. A televisão tem-se tornado uma necessidade de alto-definição pessoal diante da falta de referenciais que promovessem a conveniente formação de nossas personalidades, tendo-se oferecido a solução de criar, como que, uma busca pela caracterização de personagens vistos pelas imagens transmitidas, no intuito de definir ou, mesmo, redefinir valores pessoais, os quais ultimamente têm sido alvos violentamente transviados. Quem não possui um personagem da televisão para se caracterizar geralmente é deixado de lado e assim, marginalizado ou tratado com escárnio. Para alimentar a caracterização desses personagens, eu sei que certas profecias explicam tudo. No entanto, nem todo mundo possui maturidade espiritual para suportar a realidade revelada por certas profecias e assim relaxa seu conteúdo, como por exemplo, a figura da besta de sete cabeças no Apocalipse (cf. Apo 13, 1ss). Daí que muitas vezes nem sabemos por que buscamos nos definir em relação a certos personagens e assim caímos no encanto da serpente!
Imagine a seguinte cena: você sai de casa em direção ao centro da cidade e se despede de sua mãe, sabendo que ela ficaria em casa. Duas horas depois, você está no centro da cidade e reencontra justamente sua mãe passando do outro lado da rua, no sentido contrário do seu, com uma colega estranha ao lado. Certamente, você acenará ou logo irá ao encontro de sua mãe. A sensação é a mesma que você reencontrar um amigo antigo passando do outro lado da rua em sentido contrário ao seu. Essa sensação imediata simplesmente não tem resposta dentro da psicologia. A psicologia não sabe explicar por que você sentiu aquela sensação imediata, aquele impulso indefinido, apesar de momentos depois você encontrar um motivo para ir ou não ir ao encontro de sua mãe ou de seu amigo. Dessa forma dá para perceber que nem sempre sabemos por que buscamos uma dieta saudável, ou mesmo estar na moda, ou quem estamos namorando ou a qual programa assistimos. Certamente, sua mãe ama você pelo que você significa para ela. Quando um programa de televisão fala sobre solidariedade, acaso sabemos por que ajudamos ou por que negligenciamos?
Se alguns de nós ainda não nos encontramos capazes de suportar certas revelações divinas, quanto mais aqueles que não são capazes de encontrar respostas para as motivações de solidariedade que surgem aleatoriamente. De repente, um canal de televisão evoca um sentimento de piedade, disfarçando-o com a culpa que os sociólogos colocam da classe média aos ricos pela discrepância de poder aquisitivo entre uma maioria absoluta de pobres e miseráveis e uma minoria de privilegiados. E então, os pobres são motivados a se sentirem “culpados” e assim, terem que ajudar. Porque, para manter o império da mídia que está aí, parece necessário imputar culpa nos pobres de forma hipócrita com uma falsa piedade, interesseira, para que os pobres ajudem pensando que são ajudados!
Com isso, voltamo-nos para a personagem pobre de nosso texto e descobrimos que além da figura fictícia, existem inúmeras pessoas que, inconscientemente, não sabem que têm virtudes tais que certos canais de televisão nunca evidenciaram como algo que fizesse o ibope subir. De tanto a gente escutar a previsão do tempo, o resultado da inflação e sermos induzidos aos próximos capítulos da novela, acabamos sendo induzidos a não perceber este mundo real que doe, mas que também sublima; este mundo real que nos envergonha, mas que também pode ser causa de nossa justificação. Olhar para além da perseverança de alguém pobre em manter sua fé, mesmo diante de um algoz que covardemente buscou se aproveitar de seu ponto fraco para chantagear, olhar para essa mulher significa adentrar numa reflexão do status quo do eu-tu. Porquanto, ao louvar a Deus por ter depositado nos pobres os grandes mistérios do Reino dos Céus (cf. Mt 11, 25-27), Jesus abriu caminho para a libertação de preconceitos sobre o que o mundo das aparências não pode dizer sobre o mundo real. Não se trata de justificativas para amenizar o conflito das injustiças de todos os dias; mas sim, trata-se de uma atitude transcendental de encontrar além das aparências de pobre o que de tão valioso Deus fez questão de encobrir. E encobrir essa beleza do pobre não significa que Deus quisesse que o pobre sofresse – significa que é possível desvelar essa beleza, como quem encontra um valioso tesouro, que guarda os grandiosos mistérios de Deus ali mesmo, nos pobres (cf. Mt. 13,44).
Apesar de estarmos no país do carnaval, sabemos que o que mais caracteriza o carnaval é o disfarce. Todavia, os brasileiros acabamos nos acostumando a vivermos sob disfarces, muitas vezes para nossa própria vergonha. Por que certas pessoas não conseguem assumir sua vocação e vivem tentando essa ou aquela profissão? Além dos personagens caracterizados pela televisão, ainda existe o disfarce como meio de fuga para não assumir uma vocação, uma predestinação à felicidade. Pode parecer comprometedor utilizar estes termos “predestinação à felicidade”, porém é a linguagem encontrada que mais se aproxima da verdade de quem é mais feliz porque dá, não porque recebe. Ora, aqui encontramos um suposto paradoxo, cujo disfarce ao ser revelado demonstra porque existem poucos ricos e porque há tantos pobres. Não existem poucos ricos somente porque a maior parte do poder está nas mãos deles; existem poucos ricos porque eles acumulam e têm medo de repartir de forma justa, como se a prática da justiça significasse sua ruína. Assim também, não existem muitos pobres somente porque possuem pouco; existem muitos pobres porque os pobres não suportam acumular e logo repartem, são generosos. Dessa forma, não sobra nada, a não ser a pobreza. E é por isso que Jesus disse: “Felizes os pobres de espírito...” – (cf. Mt 5,3). Porque, paradoxalmente, os pobres têm o que oferecer; os ricos não.
Bem, se os ricos não têm o que oferecer, por que certos canais de televisão conseguem seus milhões de reais de ano em ano, disfarçando a culpa sobre os próprios pobres para que eles “ajudem”, não os ricos? Se for construído, de fato, um hospital, uma creche ou um instituto para os pobres, ah! São os próprios pobres que edificam tudo isso com o que têm a oferecer, não os ricos! Pena que dolosamente os pobres têm sido alvo de suborno disfarçado em supostas “boas ações” para crianças, adolescente, idosos e deficientes. E a chave do discernimento entre uma intenção e sua finalidade é a pergunta: Onde está Jesus Cristo nisso? Se uma intenção parecer boa, porventura sua finalidade encontra Jesus Cristo?
“O generoso será abençoado, porque dá do seu pão ao pobre” – Prov. 22,9.
Acaso você encontra Jesus Cristo em certos canais que, para ajudar os pobres, necessita que os pobres depositem algo numa certa conta bancária? Acaso você encontra Jesus Cristo em certos canais que, miseravelmente, se limita a ajudar em troca do ibope, apenas por alguns dias do ano, como se isso tentasse pagar uma dívida social de exploração e acúmulo de poder? Pois, Jesus Cristo não precisou de dinheiro para ajudar os pobres, tampouco provocar uma falsa sensação de piedade e sem o devido conhecimento da verdade para convencer quem estava no limiar entre a consciência e a animosidade provocada pela miséria.
Certos canais de televisão sabem muito bem disfarçar aquela dívida social de exploração e acúmulo de poder com sua falsa piedade, em prol de seus interesses, utilizando-se com isso de suas supostas “boas ações”. Um exemplo disso como uma súbita intenção “boa” é o combate à violência e à prostituição exibidos como algo terrivelmente pernicioso e anti-social. Acaso sua finalidade encontra Jesus Cristo? Se a finalidade não encontrar Jesus Cristo, então a violência e a prostituição continuarão mudando com o avanço da tecnologia, porque de alguma forma ou de outra, refletem a insensatez de quem não se converte aos valores humanos e se devota ao vazio do materialismo! Outro exemplo de súbita intenção “boa” é a libertação da ignorância pela educação. Também, se sua finalidade não encontrar Jesus Cristo, então teremos novidades sobre como eliminar a vida do planeta ou continuaremos sendo tratados como quem é destinado ao matadouro, da mesma forma como vacas e galinhas, como acontece, vergonhosamente, em tantos países de primeiro mundo! Meu avô não era tão religioso, mas costumava dizer, em outras palavras, algo interessante lá da Bíblia: “... a felicidade do homem é comer e beber, desfrutando do produto de seu trabalho...” (cf. Ecle 2,24)! Ou seja, como diz o ditado popular: “Pouco com Deus é muito, e muito sem Deus é nada!”.
Ajudar os pobres todo mundo pode, inclusive a levá-los para o inferno, como o personagem ateu tentou levar aquela mulher e como o “Império da Mídia” tenta eliminar toda e qualquer referência ao “Reino de Deus”, como sendo algo que iria contra o alto e necessário consumo do “deus-capitalismo”. O que parece ser difícil é ajudar da forma como Jesus ajudou, não permitindo que aquela pobreza fosse sinônimo de condenação entre classes sociais e ao mesmo tempo dignificando a pessoa pelo que ela é, não pelo que impuseram como “castigo social”. Se alguém nascer numa família pobre, logo a sociedade “castiga” o inocente como se devesse viver e morrer pobre, com suas inúmeras formas de discriminação e causando barreiras para que o pobre nunca ascenda aos valores morais e aos bens necessários à sua dignidade! Isso também designa uma tentativa insubordinada de manter tanta gente inocente numa antecipação do inferno. Assim, não seria mais preciso temer o inferno como castigo divino, mas buscar manter os pobres nesse inferno quase real, como um castigo que a sociedade lhes impõe para poder conservar seu orgulho e sua avareza. Porque, o personagem ateu do texto, por se caracterizar alguém que desconsidera Deus como referência a valores sublimes da vida, prefigura além do que foi dito acerca de certos canais de televisão, toda essa sociedade laica que se exime em reconhecer de onde lhe vem o “pão nosso de cada dia”. Ao ser taxado de “diabo”, não se trata de uma figura imaginária de um ideal espiritual que, religiosamente, explicaria atitudes meramente desumanas e covardes (ao extremo!). Trata-se de um título muito mais do que digno para quem se forma numa universidade e que, além de não perceber os valores sublimes da perseverança e da esperança de alguém humilde, ainda propõe como solução imediata deixar sua crença de lado para satisfazer a fome de forma miserável.
Então, aproximando-se o tentador, disse-lhe: “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Mas Jesus respondeu: “Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” – Mt 4, 3-4.
Isso é o que, infelizmente, se esconde pelas entrelinhas de certos programas exibidos em certos canais de televisão, como numa tentativa de transformar “pedras” em “pães”. E os pobres, coitados, acabam comendo “pedras”, acreditando que vão ser sorteados com uma casa nova, que aprenderam alguma coisa sobre a vida assistindo a novelas ou que serão valorizados ao mudar a aparência do cabelo! No fundo, no fundo, se nenhuma das supostas “boas intenções” encontra Jesus Cristo como finalidade, então, a partir de sua própria consciência, cada cristão deve assumir uma nova postura diante dos apelos que o Espírito Santo faz para que nosso estímulo à vida venha “de toda palavra que sai da boca de Deus”. Pois que toda intenção cuja finalidade encontra “toda palavra que sai da boca de Deus” em si mesma produz frutos de vida capazes de satisfazer todas as dimensões humanas – sejam elas materiais, morais, psíquicas ou espirituais.
Um cristão de verdade, aquele que busca viver a fé cristã de forma autêntica, é chamado a analisar sua realidade e encontrar respostas práticas para aceitar, de fato, aquilo que Jesus espera que sejamos como Igreja. Não sejamos Igreja somente de ouvir falar de Jesus ou de sua história – como um herói longínquo, difícil de ser alcançado. Sejamos, de fato, “novos cristos” em Cristo no mundo, prontos para libertarmos o pobre e o oprimido de suas opressões, sejam elas opressões espirituais, psíquicas ou mesmo opressões de ordem social, conforme testemunha nossa consciência e o próprio Espírito. Sem necessidade de fazer show, o que agrada a Deus, saibamos, é fazermos boas obras em segredo, pois Deus cuidará de nos recompensar em público (cf. Mt 6,1ss). Destarte, sem Cristo, sem a comunhão que nos torna Igreja, é impossível sequer termos “boas intenções” capazes de provocar conversão, quando outro ditado popular diz: “De boas intenções, o inferno está cheio!”.
Assumir essa nova postura de cristão significa não se deter em respostas “prontas” para ajudar os pobres, inclusive aquelas encontradas em certas comunidades cristãs que ainda não irromperam em uma fé libertadora, no sentido de sua totalidade. Por causa de certas desculpas estampadas como “obediência” a princípios relativamente humanos, essas comunidades acabam se contendo em suas próprias definições de solidariedade, ficando a mercê de uma exímia censura, se considerarmos a realidade dos cristãos do I século em relação aos atuais. Pois, a fé cristã exige em si mesma um surgimento impetuoso pelo desejo que se cumpra a justiça, integralmente. E foi nesse intuito que o Apóstolo Tiago escreveu:
“Se um irmão ou uma irmã não tiverem o que vestir e lhes faltar o necessário para a subsistência de cada dia, e alguém dentre vós disser: ‘Ide em paz, aquecei-vos e saciai-vos’, e não lhes der o necessário para a manutenção, que proveito haverá nisso? Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento” – Tg 2, 15-17.
E também nesse sentido é que comprovamos o isolamento de uma fé detida em definições próprias sobre solidariedade, quando certos assistencialismos ingênuos não têm comunhão profunda com o Espírito Santo (novamente, “em sua totalidade”) e se limitam diante do que seriam capazes de muito mais fazerem como se dizem “cristãos” – “libertadores”, por Cristo, com Cristo e em Cristo.
Ora, é necessária a comunhão com o Espírito Santo além do que se exprime em nossa consciência para podermos, de fato, concretizarmos nossa missão de cristãos evangelizadores, principalmente no sentido de compreendermos o que é “ser pobre”, em relação ao desapego às coisas materiais e à libertação de idéias materialistas. Pois, apesar de parecer desafiador a procura pela beleza que Deus deixou escondida misteriosamente nos pobres – nos valores sublimes que “religam” ao próprio Deus, a beleza de ser pobre não está na simples capacidade de ser paciente ou benigno, de não se arder em ciúmes ou mesmo não se envaidecer, de não se engrandecer de forma orgulhosa e soberba ou de se manter honesto. A beleza de ser pobre também não está na simples capacidade de não se irritar contra interesses de outrem ou de não guardar mágoa, de se alegrar quando a justiça é cumprida e a verdade, revelada (cf. 1Cor 13,4ss). A beleza de ser pobre está além de ouvir a voz de Deus das mais variadas formas e sermos capazes de dispor a terra de nosso coração, integralmente, como terra fértil, capaz de produzir frutos de vida perene. Porque, muitas vezes frases tão simples como “Vá em paz, que Deus te acompanhe” podem parecer tão insignificantes para nós, mas para Deus valem muito, na medida em que escondem uma fé que irrompe diante de qualquer desafio. Por isso, encontramos dificuldade em compreendermos certos desígnios de Deus, quando de forma misteriosa Deus preferiu essa terra fértil, humilde, capaz de dar inúmeros frutos, justamente para encobrir a beleza de sua glória – como uma noiva guarda para o noivo o mistério de sua beleza com seu véu.
“Eu lhes dei a glória que me deste para que sejam um, como nós somos um: Eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como amaste a mim” – Jo 17, 22-23.
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