Falar ou calar? O perigo do milagre

"Para defender Deus, ireis dizer mentiras. Será preciso enganardes em seu favor?
Tereis, para com ele, juízos preconcebidos, e vos arvorais em ser seus advogados?
Seria, porventura, bom que ele vos examinasse? Iríeis enganá-lo como se engana um homem?
Ele não deixará de vos castigar, se tomardes seu partido ocultamente".
Jó 13,7-10

Contextualizar essa passagem mereceria um aprofundamento dos riscos assumidos quando se fala em nome de Deus. O mandamento reitera o castigo contra quem usa o nome de Deus em vão [... Ele não deixará impune aquele que tomar seu santo nome em vão]. Diante de um mundo cada vez mais perdido em ganância e vaidade, calar e não anunciar o Evangelho se torna conivência com injustiças, implicando o falso testemunho cristão. Se o próprio Jesus ordenou sair pregando o evangelho a toda criatura, o que faremos então? Falar ou calar? Falar arriscando usar o nome de Deus em vão? Ou, preferir calar para não incorrer no erro?

Quando se atinge certo nível de maturidade, é necessário manter uma revisão de conceitos que nos leva a perceber certas distorções, como o uso do nome de Deus para ludibriar, como se tem visto facilmente por aí. Deus quer sim ser conhecido e divulgadas suas obras através do Evangelho. A questão é a fidelidade à sua palavra que não necessita de mentiras sobre curas, milagres ou discursos distorcidos.

Não é difícil encontrar pessoas de igreja, que tenham exercido uma fé profunda dentro de uma dimensão espiritual mas relutando para não cair em decepção por não terem sido atendidas por Deus. De nada adianta essa relutância, se a Palavra deixa claro o desejo de Deus. Mentir para si usando palavras para se justificar diante dos outros não é o esperado por Deus.

Ser presenteado com um milagre e daí uma sequência de milagres na vida é algo que alegra qualquer um mesmo. E nos deixa de certa forma estasiados, se o milagre acontece surpreendentemente grande. Quem sabe o tamanho do milagre tenha a ver com o tamanho da necessidade de conversão. Mesmo assim, a fraqueza humana nos leva a idealizar Deus de uma forma exclusiva, excluindo outras formas de sua manifestação. Daí recorrer no "mal costume" de só acreditar numa manifestação divina, se o tal milagre acontecer.

Quando isso acontece, percebe-se o quanto ainda precisamos nos libertar da insegurança espiritual. Depender de milagres ou de manifestações físicas de Deus pode sim implicar imaturidade e insegurança espiritual. Pessoas ainda presas a esse tipo de concepção, além de excluir oportunidades de uma aprofundamento sobre quem é Deus, também acabam atingindo outras pessoas ao seu redor, ignorando, por exemplo, os dons de ciência e de inteligência racional.

A continuidade nessa dependência de viver de milagres ou de que tais milagres só aconteçam a favor de quem pede aos poucos vai nos distanciando de um conhecimento sobre Deus que o livro de Jó previa, além de outros na Bíblia. E consequentemente, quando se chega a um ponto em que o milagre não acontece do jeito que foi pedido, imediatamente surgem reações de desculpas e justificativas.

Bem, se o milagre não aconteceu e a pessoa teve a intrépida coragem de se dirigir a Deus em oração para pedir explicações, assim como fez Jó, certamente que a resposta deverá vir. Mas e se faltar coragem e a pessoa voltar a clamar por outros e outros milagres que não aconteceram o jeito que ela pediu? Outras pessoas verão que Deus não está atendendo e com medo de perder credibilidade, a pessoa começa a se justificar usando mil e uma figuras de palavras e expressões linguísticas.

Ao fazer isso ainda repetidamente, um limite será imposto: ou se continua buscando justificativas infindáveis e lucrando com isso ou surge a depressão em que muitos se afastam do caminho e fogem para os encantos das delícias do mundo. No fim, uma coisa ou outra levarão àquilo que foi previsto no discurso de Jó ao encarar Deus de forma puramente sincera: "Ele não deixará de vos castigar, se tomardes seu partido ocultamente".

Antes mesmo que esse fim demore a chegar, é possível adiantá-lo fazendo uma revisão de conceitos sobre como concebemos Deus em nosso imaginário. Que o castigo esteja previsto, então é melhor adiantar o pagamento através da conversão. E parar de mentir, para de ludibriar, parar de justificar ações distorcidas da origem do Evangelho.

Só para se ter noção de uma implicância gravíssima, por exemplo, alguém que faça parte de um cargo executivo numa empresa ora na Igreja agradecendo o lucro do mês, depois que não pagou a seus funcionários como devia, além de usar de artimanhas para seduzir assediando clientes ou até poluindo o meio ambiente em prol do lucro da empresa. Digamos que essa pessoa chegue num nível em que o lucro não se faz mais perceber e para garantir que o lucro continue, ou se ora pedindo a Deus que aumente seu lucro, ou se demite funcionários, assedia mais ainda outros clientes, não se pagam os impostos devidos e se polui ainda mais o meio ambiente, como se a Terra não fosse um presente de Deus.

Existem essas pessoas nas igrejas por aí? Ah e como existem! São seus falsos testemunhos cristãos que iniciam todo um processo de corrupção de valores. Mas não é só isso, é ainda, na pior das hipóteses, estagnar o conhecimento sobre Deus, relacionando-se com ele de forma comercial, ou seja, através de trocas na busca do lucro.

O processo de conversão é contínuo, a partir do mergulho na Palavra de Deus. Teve um início como um "Big-bang", mas não parou, não estagnou e ficou fotografado no passado, mas sim tem sua continuidade. Sem essa conversão continuada, corre-se o risco de empurrar o castigo de Deus para as últimas consequências em que Jesus já havia advertido que muitos dirão que haviam feito milagres (no plural) em seu nome, porém ele dirá que não os conhecia e os afastará de sua alegria eterna.

Antes de se vangloriar por qualquer conquista ou qualquer milagre em nome de Deus, considere a sinceridade de coração na mais pura intenção. Certamente é isso que Deus espera de nós. Ele não precisa que em nossa vanglória, coisas sejam ditas de forma distorcidas da realidade, por melhor ainda que seja a intenção.

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