Entre o céu e o inferno

Certo dia, um sábio quis conhecer o céu e o inferno. Há muito tempo havia nele o interesse em descobrir a veracidade da existência desses dois destinos eternos antes mesmo de morrer. Dia após dia, o sábio se perguntava: como alguém poderia crer no céu e no inferno, se até o momento ninguém tivesse voltado de lá para provar sua existência? Deus, então, percebendo a sinceridade do interesse daquele sábio, interveio, encarregando um de seus profetas, Elias, para revelar, aqui na terra, a existência do céu e do inferno como destinos últimos de nossa existência.

Então, Elias se aproximou do sábio e o levou a dois lugares distintos.

No primeiro lugar, Elias entrou com o sábio numa sala ampla, desarrumada, suja e deteriorada, na qual havia muitas pessoas ali. Uma enorme tela de cinema estava no centro da sala. Enquanto umas pessoas se debruçavam sobre o filme, outras tentavam tirar com brutalidade as que estavam na frente, para poder ver. Algumas pessoas se acomodavam deitando-se no sofá, enquanto outras brigavam violentamente para poder tomar o lugar. O filme se passava e ao mesmo tempo alguém sozinho escutava música atordoante, com volume de som altíssimo. A azáfama estava feita; uns dançavam sobre os outros pisando, chutando, outros gritando e ameaçando... até que se ouviu o sinal da propaganda feita fora do lugar: estava na hora de almoçar. Mas acontece que o sinal da propaganda foi repetido seis vezes e, por seis vezes, as pessoas corriam, obedientemente, para almoçar.

Durante o almoço, na mesa havia um enorme caldeirão de onde as pessoas tiravam o que comer. Cada pessoa tinha uma colher enorme e lançava seu braço dentro do caldeirão buscando tirar algo dali. No entanto, todo mundo queria tirar o que comer ao mesmo tempo: enquanto uns conseguiam comida nas colheres, outros batiam para a comida do outro cair. À medida que alguém conseguia tirar comida, tentava colocar a comida na boca, mas não conseguia devido a colher ser enorme! Então, uns jogavam a comida nos outros até acabar o intervalo comercial, quando aí a propaganda surgia para repetir tudo de novo. No fim, muita gente ficava sem comer, chorando e gemendo de frio, enquanto as que conseguiram comida ridicularizava as que ficaram com fome. Aí vinham as discussões, e as brigas e as guerras, a ponto de que quem estava com fome seria capaz de se atirar sobre os outros para arrancar e comer pedaços da carne de seu corpo.

Ao sair daquele lugar, o sábio perguntou a Elias:
_ Elias, que lugar era aquele?

Elias respondeu:
_ Aquele lugar era a prefiguração do inferno!

Logo depois, o profeta Elias levou o sábio a outro lugar. Entraram, pois, numa sala ampla, limpa e arrumada com castiçais de ouro pelos cantos de onde se iluminava o lugar e com vasos de flores raríssimas, dispostos aos pés dos castiçais. Toda a sala era constituída com enormes colunas e várias janelas enfeitadas com cortinas brancas dispostas entre as colunas. Num dos cantos da sala, havia uma orquestra com um lindo coral de crianças entoando sublimes melodias. No centro da sala havia, contudo, uma enorme mesa nua, de cedro, e também, várias pessoas ali ao redor, dançando ao som da orquestra e esperando o dono chegar.

Quando o dono do lugar chegou, todos o reverenciaram com ósculo. Ele estava vestido com um manto e, dirigindo-se à mesa, beijou-a e vestiu a mesa com seu manto e ali se acomodou. Imediatamente, todas as pessoas se dirigiram à mesa e sentaram-se ao redor com seus olhos fitos no dono do lugar. Trouxeram, então, vários pratos de comida, e todos foram servidos. Enquanto uns choravam, outros os consolavam. Os que sorriam osculavam os outros, como se os outros fossem mais importantes que eles. De tal modo era a estima que uns davam de comer aos outros de seu próprio prato, e assim a comida nunca se acabava.

Ao sair daquele lugar, o sábio perguntou a Elias:
_ Elias, que lugar era aquele?

Elias respondeu:
_ Aquele lugar era a prefiguração do céu! (...)

Agora, você poderia se colocar no lugar do sábio e se perguntar: “Que deveria eu fazer para saber escolher um dos dois lugares como minha morada eterna?”.

Todo mundo quer ir para o céu, para o céu que imagina de si mesmo, e busca fugir do inferno, mesmo que para isso tenha de mandar os outros em seu lugar! Mas a escolha entre o céu e o inferno não passa pelo desejo fictício do que seja apropriado, conveniente: são as obras de uma pessoa que farão sua escolha, segundo os desígnios de Deus. Deus é de, tal forma, tão generoso que entregou nas mãos do próprio homem seu destino eterno, apesar de Ele querer que todos venham para o céu. Mas o homem tornou-se inimigo de Deus com o pecado e, nesse sentido, é fácil ir para o inferno, ao passo que é bem difícil entrar no céu. Ao escolher seu destino eterno, você estará escolhendo permanecer com o pecado ou abandoná-lo para conhecer a verdade, pois o céu é Deus! Ir para o céu é ir para Deus!


Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva sempre! (Gn. 3, 22).


Muitos me dirão naquele dia: “Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos e em teu nome que expulsamos demônios e em teu nome que fizemos milagres?” Então eu lhes declararei: “Nunca vos conheci! Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”. (Mt. 7, 22-23).


Assim também a fé, se não tiver obras, está morta em seu isolamento. De fato, alguém poderá objetar-lhe: “Tu tens fé e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras e eu te mostrarei a fé pelas minhas obras”. (Tg. 2, 17-18). Pois por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado. (Mt. 12, 37). Eis o que é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2, 3-4). Ao vencedor, conceder-lhe-ei comer da árvore da vida que está no paraíso de Deus (Ap. 2, 7).


Felizes os que lavam suas vestes para terem poder sobre a árvore da Vida e para entrarem na Cidade pelas portas (Ap. 22, 14).

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