O diabo paga a conta

Certa vez, uma mulher muito pobre pedia esmolas numa dessas esquinas do centro da cidade. Todas as vezes que alguém passava perto dela, sentada no recanto de um prédio, a mulher estendia a mão pedindo algo. Mesmo a quem não tinha o que oferecer, ela costumava sempre responder: “Vá em paz! Que Deus te acompanhe”. Apesar de viver essa condição que a vida se lhe impôs, a mulher tinha o sonho de um dia poder reencontrar seu filho, que por sua vez morava numa outra cidade distante dali e não sabia que a mãe estava naquela condição. Por isso, sempre que podia, a mulher fazia um sacrifício a mais para juntar dinheiro e assim poder viajar e ir ao encontro de seu filho, sem ter de lhe causar vergonha porque pedia esmolas.

Certo dia, um cidadão passou perto daquela mulher e teve que se deter com seu pedido de esmolas. Apesar de ter condições o suficiente para dar esmola, o cidadão estava tão apressado que nem deu atenção ao gesto feito pela mulher. Quando ele já ia adiante, a mulher, mesmo sem ter recebido esmola, lhe disse:
_ Vá em paz! Que Deus te acompanhe!

Com isso, o cidadão se inquietou com aquela resposta, porque mesmo sem receber nada, a mulher agradecia. Ora, o tal cidadão era um ateu, jamais quis dar atenção a assuntos de religião ou mesmo manifestar uma crença em algo transcendental. Ao ouvir aquilo, ele voltou-se para a mulher e quis lhe dar uma de suas respostas “prontas” que aprendeu na faculdade em relação à pequenina fé daquela mulher, ao ter-lhe dito: “...Que Deus te acompanhe”. Pensando bem, não quis impressioná-la imediatamente e ao mesmo tempo em vão. Resolveu apenas dar um de seus sorrisos hipócritas, que sempre oferecia aos “amigos” de trabalho (ou qualquer coisa que chamasse de “amigo”), e continuou seu caminho, com a pretensão de um dia voltar e dar uma resposta que fizesse a mulher parar de dizer:
_ Vá em paz! Que Deus te acompanhe!

Passados alguns meses, veio a época do Natal. Até o momento, a pobre mulher não tinha sequer juntado o suficiente para poder viajar e ir ao encontro de seu filho. E para completar, ela recebeu uma carta justamente de seu filho muito amado dizendo que retornaria em poucos dias para rever sua amada mãe. Foi então que a pobre mulher se viu impaciente e numa situação desesperante, porque o pouco que havia juntado não dava para receber bem o filho que retornava. Decidiu suplicar a Deus para que tivesse piedade quando as pessoas passassem perto dela e lhe dessem o necessário para que ela pudesse receber bem o filho. Mas, ao contrário do que se esperava, nada acontecia que favorecesse as esmolas dadas àquela mulher. As pessoas que passavam perto da mulher só recebiam a resposta:
_ Vá em paz! Que Deus te acompanhe.

Muitas delas comentavam o gesto estranho da pobre mulher ao oferecer a paz a quem mesmo não lhe dava nada, e chegavam até a caçoar da pobre mendiga julgando seu aspecto e escarnecendo: “Essa daí bem que podia estar trabalhando, ao invés de querer que as coisas caíssem do céu para ela”. Não eram capazes de ver a aflição que havia num coração desesperado e sem forças para tomar outra iniciativa.

Por outro lado, aquele cidadão do sorriso hipócrita estava pensativo em como provar para uma mendiga que Deus não existia. Porque se dizia ateu, o cidadão também jamais se questionou qual a definição de fé e como havia conseguido tudo em sua vida (já que ele “acreditava” que Deus não existia!). Simplesmente, as respostas “prontas” que alimentavam sua falsa utopia de vida feliz tinham uma relação direta com aqueles produtos enlatados pré-fabricados dos supermercados, e assim “Deus não existia” era uma de suas respostas prontas que jamais passou por uma crítica pessoal ou jamais foi submetida à experiência da existência de Deus. Afinal, como ele era exímio em convencer os colegas de sua classe intelectual, agora se via no desafio de provar para alguém pobre que Deus não existia.

Bem, se pode parecer fácil convencer um pobre a votar em quem se mostra seu “salvador”, nada melhor que convencer aquela mulher justamente pelas suas carências. Daí que o cidadão decidiu: “Já sei o que vou fazer. Vou provar para aquela mulher miserável que Deus não existe de tal forma que nunca mais ela se esquecerá de mim! Quando suas necessidades tiverem sido satisfeitas, então ela verá que Deus não existe!”.

Chegou, em fim, o dia em que o filho da pobre mulher retornava ao seio de sua amada mãe. A mulher, coitada, ainda pedia esmolas como numa última tentativa, apesar de diariamente suplicar a Deus piedade. Teimosamente, ela ainda repetia mesmo com o pouco que havia juntado:
_ Vá em paz! Que Deus te acompanhe!

Passou, contudo, o cidadão em seu carro bem próximo aonde havia encontrado a mulher da última vez. Ao certificar-se que ela ainda estava ali pedindo esmolas, imediatamente ele foi ao supermercado mais próximo e ali comprou tudo o que achou melhor para convencer quem estava na penúria. Encheu o porta-malas do carro e voltou ao local onde a mulher suplicava esmolas. Chegando lá, o cidadão desceu do carro, abriu o porta-malas e despejou tudo aos pés da mulher dizendo:
_ A senhora acredita em Deus?

Ao que a mulher ficou calada, extasiada pelo acontecido.
_ Vamos, responda! A senhora acredita ou não acredita em Deus? – repetiu ele.

Ainda meio que atônita, a mulher respondeu quase que balbuciando:
_ Graças a Deus!

Então o cidadão lhe atacou:
_ Não, minha senhora, graças a mim e ao meu dinheiro. Certo dia eu havia passado, e a senhora havia me dito: “Vá em paz! Que Deus te acompanhe!”. Ora, o que me acompanha todos os dias é o meu dinheiro, ganho pelo meu trabalho. Fui eu quem trabalhou, ganhou esse dinheiro, foi no supermercado, comprou tudo isso e o trouxe aqui, no meu carro. Agora, sua fome vai passar, e não foi Deus nenhum que lhe trouxe tudo isso aqui. Fui eu quem tirou tudo isso do carro e o pôs a seus pés.

Daí que a mulher respirou fundo, olhou para os céus e finalizou com o contragolpe:
_ Obrigada, meu Deus, porque te pedi tanto e recebi mais do que merecia para ter de volta o meu filho amado. E obrigada mais ainda porque, além do Senhor me dar mais do que eu merecia, ainda mandou o diabo pagar a conta!

Programa televisivo:
CANÇÃO Nova (canal 46, RN). Pregação. RCC. Cachoeira Paulista, SP (13/07/2008, às 21h30min), son., color.

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