Oração pelos mortos, procede ou não?



Você teria dúvidas sobre a oração em favor de quem morreu, se seria válida? Então consulte a seguinte passagem em sua bíblia:

II Macabeus 12,38-39.41-42.44-46:

Quando havia reunido seu exército, Judas alcançou a cidade de Odolão e, chegando o sétimo dia da semana, purificaram-se segundo o costume e celebraram ali o sábado. No dia seguinte, Judas e seus companheiros foram tirar os corpos dos mortos, como era necessário, para depô-los na sepultura ao lado de seus pais.
Bendisseram, pois, a mão do justo juiz, o Senhor, que faz aparecer as coisas ocultas, e puseram-se em oração, para implorar-lhe o perdão completo do pecado cometido. O nobre Judas falou à multidão, exortando-a a evitar qualquer transgressão, ao ver diante dos olhos o mal que havia sucedido aos que foram mortos por causa dos pecados.
Porque, se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis por que ele pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres de suas faltas.


Perceba a diferença de atitude: Uma coisa é você orar e os efeitos da oração voltarem para você mesmo a seu favor, qualquer que seja a intenção. Outra coisa seria acreditar que a sua oração atingiria a realidade de quem já morreu, coisa que beira doutrinas espíritas fora da comunhão com a Igreja. O que existe disseminado por aí são misturas da sã-doutrina cristã com a doutrina espírita e daí haver confusão de procedimentos quanto à oração pelos mortos.

Na antiguidade, os judeus acreditavam numa dimensão transcendental do pecado, ou seja, que uma vez concordando com o pecado de alguém, você se tornaria o mesmo pecador por pura intenção (ou algo parecido). Que essa dimensão exista, nem todos e cada um de nós teria a mínima curiosidade de experimentar a comparação dessas realidades, mas independente disso, os judeus acreditavam que oferecendo sacrifícios e orações, isso iria eximi-los de se "contaminar" com o pecado, até mesmo provocado por quem havia sido assassinado num conflito ou guerra. Dessa forma, era como se o pecado contaminasse alguém ao ter tido contato com alguém pecador antes de morrer. E com isso, havia a intenção de purificação para não se "misturar" ao pecado do fulano, oferecendo sacrifícios e orações. E isso é típico dessa passagem bíblica que contextualiza uma dimensão sagrada de um procedimento de fé.

O puritanismo foi uma prática rejeitada pela Igreja desde os primórdios, isso porque nenhum de nossos sacrifícios pessoais seria capaz de nos purificar dos pecados, indo contra a missão salvífica do Filho de Deus. Que os sacrifícios sejam válidos, sim eles são válidos como oferendas gratuitas de quem se alegra em Deus, através de seu relacionamento diário. Mas tais sacrifícios não podem ser confundidos como uma prática capaz de purificar pecados, porque vai tentar extrair o próprio Cristo do sacrifício da cruz. O puritanismo denunciado dentro da comunidade cristã do primeiro século foi algo revelado pelo Espírito Santo, que havia já no meio judaico bem antes da encarnação do Filho de Deus. Por inúmeras vezes, você vai encontrar passagens demonstrando os conflitos entre Jesus e os fariseus que praticavam o puritanismo como forma de se tornar autossuficiente pelos próprios méritos pessoais, excluindo a intenção primeira de Deus determinada nos mandamentos. Os próprios mandamentos indicam que o caminho da felicidade e da vida eterna estão direcionadas para o Pai, não para os sacrifícios pessoais.

Por outro lado, a oração pelos mortos poderia indicar inutilidade, quando se pensa em "salvação da alma". De fato, não há oração humana capaz de fazer um morto ressuscitar por méritos próprios, se o próprio Jesus não inspirar aquele momento profético. A questão, porém, muita vezes vai de encontro à justificativa que algumas práticas requerem referência bíblica. Os judeus costumavam orar por seus entes que haviam partido, talvez não na mesma intenção que alguns católicos oram, mas sem com isso justificar as contradições protestantes contra manifestações piedosas.

Orar costuma fazer bem. Saber orar é algo que se aprende no dia a dia, incluindo os exemplos de quem mais demonstrou ter se aproximado de Deus. Mas nem sempre sabemos orar, às vezes sim misturamos nossos apelos ou frustrações com a maneira correta de orar, para então daí dar privilégios ao que mais pedimos do que agradecemos. Assim também seria a oração por quem já se foi, se soubermos dar a importância que tem comparada à necessidade de orar também por outras causas.

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