Beijos x Família

Na semana passada houve uma polêmica sobre um gibi cuja capa tinha dois rapazes se beijando e que o prefeito do Rio de Janeiro Marcelo Crivela tinha ordenado apreender o material... Não é de agora que esse tipo de material entra na discussão do que é certo ou errado. Existem os dois lados de ser "bom", como também existem os dois lados dos que estão contra "os bons".

Na época da Jesus, a saudação inicial quando uma visita chegava de viagem era o ósculo, ou seja, um beijo entre dois homens. Não conheço a procedência de qualquer saudação para mulheres, entre mulheres ou entre homem e mulher, tamanha a concepção de família patriarcal da época que se extraem de fontes bíblicas. Eram só os homens cabeça-da-família que se saudavam e com beijo na boca, sim senhor. Não era aquele tipo de beijo romântico trágico da Roma perdida, mas sim um beijo respeitoso na mesma intensidade que hoje se apertam as mãos. A propósito, esse tipo de saudação carregava consigo um sentimento de respeito refinado e sem qualquer insinuação libidinosa. Beijar, portanto, não era o problema daquela época, se conseguirmos transcender para a realidade da vida moderna o sentido de uma saudação respeitosa.

No entanto, em algum momento da história, os homens começaram a usar o beijo como demonstração de atração sexual por mulheres. Isso se deu propriamente durante a Idade Média, e a Igreja na época logo respondeu transferindo para o beijo o sentido de compromisso a ser assumido, quase como uma aliança de casamento. Daí então, os enamorados ou prometidos em casamento, ainda na fase de noivado, "tinham" a liberdade de usar o beijo como demonstração de fidelidade. Não havia necessidade de exuberância ou beijos escandalosos, porque a concepção de casamento imprimia total doação de corpos entre os noivos, bastando para isso a consumação da bênção no altar. Claro, que não devia haver qualquer apelação erótica para garantir a felicidade de um casamento duradouro: ao passo que a virgindade era exaltada por um lado, os felizmente casados também era compensados pela liberdade sexual entre suas quatro paredes.

Comparando o beijo a outros atos sexuais, talvez ele só ganhe das carícias em intensidade e importância. Dificilmente (não impossível), um casal se saciaria sexualmente somente com um beijo ou até mesmo seriam capazes de conceber através de simples carícias. São atos prévios diante da maior intensidade de prazer, que envolve outras atividades sexuais cuja finalidade busca o orgasmo. E nesse sentido, não podem ser tratados com importância a mais do que propriamente são. Psicologicamente, o beijo está além da consciência, ou seja, é fruto de impulsos inconscientes que apenas demonstram atração e desejo. Assim sendo, por si só não significam nada além de uma troca de carícias do ponto de vista de sua naturalidade.

O beijo, por outro lado, também foi usado na traição de Judas a Jesus. Sim, foi um ósculo diante dos outros discípulos e daqueles que tinham vindo prender Jesus. Longe de ter sido uma saudação com naturalidade, o beijo da traição de Judas cotinha um propósito para além das aparências. E parece que quando usado com segundas intenções, o beijo volta a se enquadrar numa atitude de tentativa de assédio, quando a vítima se vê perdida envolta a sentimentos e pensamentos que excedem sua capacidade de alto-domínio.

Com o advento das telenovelas mantidas pelo empresariado já em meados do século XX, o beijo entrou em cena como algo que devia ser exibido diferente do normal. A Igreja e o Governo não tomaram parte na liberdade cultural que aos poucos seria distorcida, iniciando com ingênuas cenas que tentavam reproduzir o cotidiano brasileiro. A propósito, enquanto Igreja e Governo mantinham sua separação em poderes distintos (religião x política), não se percebeu que a cultura como um bem genuíno de valor ímpar para a formação de um país foi aos poucos sendo apossada pelas grandes empresas de televisão. Daí se enraizou e daí surgiu a propriedade sobre a cultura brasileira, usando de meios tecnológicos cada vez mais alienantes.

O poder que a televisão exercia distorcendo a cultura brasileira através da influência das telenovelas foi se intensificando cada vez que uma nova novela era lançada e que um galã beijava diferente do outro que passou. O prazer sexual através do beijo por sua naturalidade foi aos poucos sendo o menos importante em si: era preciso intensidade no romantismo trágico da forma de beijar para garantir o Ibope. O movimento da câmera, a forma como a mulher se jogava nos braços do galã e a música de fundo seduziam ainda mais o envolvimento com a cena apresentada. Acaso, podia haver maldade num amor entre dois apaixonados? De forma alguma. O problema é que o beijo de uma novela era apresentado como um meio de buscar a felicidade, no entanto tal meio nunca encontrava seu fim. Pelo dinamismo como as novelas iam sendo substituídas, chegou-se ao ponto de que o beijo hétero havia perdido a graça.

Se até então os produtores de telenovelas haviam conquistado sucesso de público, a ordem não era manter-se alinhado à naturalidade da cultura produzida pelo povo brasileiro, mas sim buscar meios de não perder a audiência. Infelizmente e pela ingenuidade da grande maioria do povo, não se conseguiu produzir novas novelas cuja temática envolvesse problemas bem mais profundos da realidade brasileira, como por exemplo, a acessibilidade para deficientes e os direitos dos povos indígenas. Parece ser mais rentável um beijo entre dois homens do que um deficiente que acorda cedo pra estudar, trabalhar, praticar um esporte e tornar-se campeão numa para-olimpíada. Parece impactar bem mais dois homens numa cena trágica envoltos a um beijo do que o cuidado com a terra e as águas dos povos indígenas que não os utilizam para alienar ou enganar outras pessoas. Isso sem contar diversas problemáticas políticas ou questões éticas envolvendo membros de religiões diversas. Assunto pra contar em novela se tem sim, o que falta são produtores de novelas fazerem diferente dos políticos corruptos.

Se por um lado esgotamos nossa paciência diante de tantos escândalos de corrupção na política, por outro não percebemos que a corrupção de valores éticos é bem mais profunda e traz consigo consequências desastrosas, como temos visto nas últimas gerações dos baixinhos de Xuxa ao Pikachu do pokemon. Não estamos aqui para questionar o direito homossexual de se beijar, a questão é a forma como nossa cultura foi sendo distorcida através de contínuos assédios que corromperam nossos valores éticos. E de certa forma, a Igreja e todas as dissidências evangélicas cristãs teriam culpa nisso quando se tornam coniventes.

Os grande patriarcas do eixo judaico-cristão não são conhecidos por qualquer ato utopicamente heroico. A partir deles, todo judeu ou cristão assim se definem quando passam por uma experiência transcendental, seja a circuncisão, seja o batismo. Sem essa experiência transcendental, não haveria sentido em defender ideias como a concepção de família com pai, mãe e filhos e outros valores atrelados. No entanto, quando os produtores de telenovelas se viram esgotados em sua criatividade cultural, começaram a buscar meios de distorcer a cultura brasileira, chegando ao ponto de invadir a concepção de família. Eles não conseguem mais produzir algo novo, não conseguem inovar sem aproveitar o que já existe por sua naturalidade e distorcê-lo a seu bel-prazer.

Uma das questões éticas para além do amor entre dois homens é a recorrência ao incesto. Amar alguém nem sempre passa pela necessidade última de privilegiar um desejo sexual mal-orientado como se não houvesse alternativa. Amar alguém exige, além do respeito, um voto de fidelidade. [continua...]

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Franklin Rodrigues
Natal, Rio Grande do Norte, Brazil

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